Transparência
Há quem defenda que, quando não correspondidos, devemos guardar os nossos sentimentos para evitar qualquer rebaixa. Há quem defenda que, nestas situações, devemos guardar os nossos sentimentos para nós mesmos e esperar que a vida se encarregue de os desvanecer. Na minha perspetiva, a melhor maneira de nos resolvermos connosco consiste em expressar aquilo que sentimentos de modo a que o aceitemos e, com a falta de correspondência, o sentimento desvanece. Existem dias em que acordo e acredito que sou capaz de enfrentar o mundo porque o sentimento começa a desvanecer. Por outro lado, existem dias em que acordo, e só tu me habitas a mente. Existem dias em que acordo triste, à espera de algo teu, e acabo por camuflar esta necessidade através de ocupações diárias. Existem dias em que acordo feliz, pouco consumido por ti, e, ao final do dia, a solidão aparece. Não sou correspondido, e isso corrói. Mas nada corrói para sempre, ou, pelo menos, não deveria. E acredito que tudo nesta vida se resume a uma questão de tempo. Hoje acordei num daqueles dias em que as minhas ocupações me permitiram um esquecimento temporário mas, ao caír da noite, voltaste a habitar o meu pensamento. Anseio, diariamente, pelo dia em que irei acordar com uma paz interior e irei perceber que o nosso capítulo encerrou. Custa-me olhar pela janela e saber que habitamos o mesmo céu, num raio tão curto, e estamos separados. Custa-me entender como é que isto não é retribuído, e como é possível que aquilo que sentias por mim desvaneceu. Dias como o de hoje acabam por resultar (quase sempre) da mesma maneira: o coração aperta e os dedos escrevem-te uma mensagem, porque uma chamada seria rejeitada por ti. Até quando me vou submeter a rejeições atrás de rejeições? Quis acreditar, por algum tempo, que sentíamos o mesmo. Quis acreditar que a tua mágoa seria grande, de tal forma, que te refugiavas no teu mundo com medo de que o nosso envolvimento te magoasse mais. Hoje, com clareza, entendo que vivemos sentimentos distintos. Eu gosto mais de ti. Gosto, de tal forma, que te procuro nas tais noites de agonia. Não me considero fraco, porque enfrento o que sinto. E a minha transparência define-me. A genuinidade do meu sentimento é a parte mais bonita dele. E gosto de gostar assim de ti, porque isto prova-me o quão humano me sinto. Humano o suficiente para gostar de forma tão pura de alguém ao ponto de não o conseguir camuflar. Até quando irá isto durar? Chega, e eu sei que chega. Mas será que chegar basta? Quando irá bastar? Eu mereço que baste.
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